Prólogo

Nome: São tantos nomes, tantos rostos. Por hora basta que me chame de Sandman se te faz feliz

Local: Aqui, alí, acolá, onde a próxima página em branco se abrir

O que amo: Contos, RPG,
Musica, Livros, Poesias,
Filmes, beijos

O que odeio: Palavra forte demais
O que não tolero: falsidade, hipocrisia,
pergunta idiota, gente futil.

Minhas Metas: Ser feliz
não importa onde

Direitos Autorais: © Todos os
direitos são reservados. Os
direitos autorais são protegidos
pela Lei nº 9.610 de 19/2/98.
Violá-los é crime estabelecido
pelo Artigo 184 do Código Penal
Brasileiro. Se você quiser copiar,
não esqueça de divulgar a
autoria.





Archives


2:29 PM
 

E Deus brinca de aeroplano...


Estava agachado sobre o peitoral da ponte que ligava Nova York a San Francisco. Os olhos de um vermelho intenso preso na imensa nuvem negra de fumaça que se erguia a alguns metros, atrás de si, o barulho ensurdecedor das buzinas do congestionamento que se formava. Algumas pessoas tão aturdidas com o que haviam acabado de ver diante de seus olhos que não prestavam atenção no garoto parado ali numa posição tão perigosa, mas para Francis era como se estivesse em uma simples e segura cadeira de balanço, a ter o corpo a ondular vez ou outra para frente ou para trás com o vento forte que vinha do norte. E os olhos não despregavam das labaredas que subiam cada vez mais alto. Quantas mortes teriam ocorrido naquele acidente? Ele não tinha idéia... E inexplicavelmente via certa beleza no chocar do metal contra o concreto, mexia-se com toda a calma do mundo para que os braços deixassem descer de si a mochila que ele trazia para frente, abrindo-a sem deixar que os olhos desviassem da imagem que ele detalhadamente focava na mente. As mãos experientes adentravam na mochila alheias aos ruídos que vinham de trás de si... Às pessoas que se amontoavam no parapeito para poder ver também a desgraça alheia, e achava graça quando isso acontecia, as pessoas estavam sempre pré-dispostas a deleitar-se em situações de horror. Fosse nos noticiários, fosse nas fofocas de janela, não importava... Tratava-se de desgraça alheia e era do interesse de todos... Equilibrou-se com calma abraçando a viga metálica ao seu lado quando levou um pequeno trombar... E então os olhos voltavam-se para o rapaz que afoito quase lhe derrubara. - Isso é lugar de ficar guri? – A voz do rapaz de físico avantajado se fazia escutar atrás dele. Mas a mesma voz morria aos lábios quando ele podia ver os olhos vermelhos do garoto e por Deus, havia algo que ele não saberia descrever naquele momento... Uma agonia... Que fez o rapaz dar alguns passos para trás e sair dali. Francês voltava a olhar para a chama que já ia alta, junto às nuvens de poeira e fumaça. Sentava-se ao parapeito, precisava de uma posição melhor que a que estava... Pelo menos para dar inicio ao rascunho que iria fazer, e as mãos livres tomavam seus papeis, a segurar o bloco e o carvão para que ele pudesse desenhar com pacifica exatidão o que seus olhos haviam presenciado. E ele desenhava o momento em que o avião chocava-se com uma das grandes torres. Ele poderia escutar os gritos de agonia de cada pessoa daquele prédio e nem mesmo sabia por quê. Ou porque conseguia sentir o cheiro do sangue aliado ao cimento, ao concreto... - Meu Deus... – uma senhora gritava a seu lado pondo as mãos sobre os lábios horrorizada com o que tinha visto, com o choque dos aviões contra o World Trade Center.- E o que Deus tem a ver com isto? – Ele murmurou num sorriso. Pq as pessoas sempre incriminavam uma força divina e talvez inexistente para toda e qualquer catástrofe que sofriam ou presenciavam? – Ah esqueci... – ele sorriu enquanto ajeitava-se para descer do peitoral da ponte guardando seu material de desenho – Ele devia estar brincando com seu aeroplano e perdeu o controle dele, então... – olhava para a mulher horrorizada com um sorriso no rosto pálido e descia do parapeito, colocando a mochila sobre as costas, meneando negativamente a cabeça. - Do que está falando, seu louco!!! Você não tem sentimentos?! Pense em quantas pessoas morreram!!!! LOUCO. Ele dava de ombros e caminhava de costas com os olhos tão frios para o rosto tão doce, fixos na mulher. - E quantas pessoas morrem todos os dias neste país? Hm? Fome, preconceito, roubo, estupro... Violência... Por que apenas aquilo – apontava o dedo para a fumaça negra – é obra de “Deus” – Fazia um sinal de aspas enquanto falava o nome do Salvador e piscava para a mulher, retirando do bolso do jeans surrado uma caixinha de chicletes e colocando no ouvido o fone do MP3 player, escutando a voz do vocalista do Silverchair cantar Israel’s Son.. - Hate is what I feel for you and I want you to know that I want you dead.You're late for the execution... If you're not here soon, I'll kill your friend instead. – os lábios moviam-se num cantar silencioso entre o mascar do chiclete. - All the pain I feelcouldn't start to heal although I would like it to… os lábios se moviam graciosos acompanhando a letra da musica enquanto caminhava entre os carros, vez ou outra deslizando os dedos sobre a lataria dos modelos mais antigos, gostava dos modelos mais antigos. Seu avô dizia que tinha uma alma velha, ele sorriu ao lembrar do velho Kevin. Seguia a passos retos, sem dar importância aos acontecimentos a seu redor, queria chegar ao local das chamas, dos desastres. Só assim poderia dar cor ao desenho em carvão. Não escutava a mulher que discutia com o marido dentro do carro, ou o choro da criança ao ver a mãe receber o forte tapa no rosto dado pelo próprio pai, não via o jovem que batia a carteira de um homem que estava apoiando-se para ver a desgraça alheia e não via a própria ao ser roubado, nem os gritos que se davam em contrapartida ao tentarem correr atrás do jovem que havia assaltado a pouco e apenas tirou os ombros da frente para que o rapaz passasse por ele quando corria, os olhos ainda presos à frente, não deu atenção aos xingamentos que vinham por ele ter deixado o assaltante escapar, eram como quadros em câmera lenta. Chegava ao fim da ponte, o fim da linha, e eram mais alguns metros até os prédios que haviam sido atingidos, carros de bombeiros, ambulâncias, pessoas correndo, e ele transitava entre todos mantendo o mascar do chiclete, os dedos iam ao bolso do jeans surrado aumentando o volume das guitarras distorcidas que ouvia. Transformando as cenas que via quase em um videoclipe. Os pés o guiavam até a área interditada da policia, achava graça naquelas tirinhas amarelas que muitas vezes eram mais fortes que as maiores muralhas de concreto e parou, via uma certa beleza naquilo e nunca soube explicar porque. As pessoas sendo retiradas dos destroços logo que a segunda torre caíra. As sirenes, tudo compondo um balet mórbido que preenchia seus olhos. Retirou mais uma vez a mochila das costas respirando fundo, os olhos azuis buscaram o céu, se semi-cerrando devida a claridade que eram expostos daquela maneira e sentava-se no chão, de onde estava tinha uma visão privilegiada e não se importava com as pessoas que corriam em sua direção, passando por ele a trombar-se vez ou outra, os dedos finos e pálidos iam ao crayon para dar cor ao desenho em carvão. Datava. Nova York, 11 de Setembro, e Deus brinca de aeroplano... – Sorria, iniciando o colorir da mão que atirava um aviãozinho de papel tendo o braço encoberto por nuvens na direção das torres gêmeas.


Rabiscado por Sandman

3 :... Encontre a si mesmo ...: