|
1:01 PM
Com a queda, a evolução.

Fora arremessado, ou jogou-se? Em que momento de sua divinal existência ele debateu-se com a fria escolha? O vento frio e cortante que feria a pele mármore lhe soprava pequenas e antigas verdades. - Um dia vais precisar escolher de que lado ficar meu irmão. Fechava os olhos. Gostos de sangue, gosto do próprio sangue, do sangue de outros. Quando seus olhos de um azul tão doce se tornaram rubros? Rubros como sangue injetado. Rubros de uma ira contida que ganhava proporções e formas dentro dele. Estava ainda no topo da montanha. Ainda ouvindo as vozes de seus irmãos que se misturavam num bailar sem fim. Vozes dos suplicantes, e ele que outrora rasgava o sol por qualquer suspiro de dor que viesse com o vento, agora selava seus ouvidos para todo e qualquer ruído que não viesse de si mesmo. Era o momento da escolha e qualquer barulho, qualquer som que interrompesse isso poderia ser fatal em sua decisão. Mais um passo foi dado. Os pés descalços pisavam a pedra fria pelo ar da noite. Rasgava a túnica carmim que usava. Deixava a pele marmórea de um corpo desenhado em músculos que outrora lhe foram entregues para expressar sua força. - Que seus braços e pernas sejam fortes para que possas suportar e ajudar a suportar os pesos do mundo. Ele ri.. ri de um jeito insano de sarcasmo. Havia cansado. Havia cansado de escutar a voz dos homens. Ele esqueceu de lhe dizer o quão mesquinhos são aqueles que Ele chama de filhos. Sua imagem e semelhança. Isso o fazia crer que o Criador era então tão mesquinho quanto e ele ria. Ria por notar quanto tempo aquele véu de incertezas ficou plantada em sua mente. Quantas vezes ergueu a sua espada de um fogo tão azul e lutou por verdades que não eram suas.. nem de ninguém. E ria. Ria a um gargalhar de dobrar-se. O corpo marcado por cicatrizes de guerra. Guerra contra demônios, contra caídos, contra seus próprios irmãos. As asas que se abriam inteiras em total envergadura, alvas, mas sem brilho. Sem a vistosidade que apenas a ingenuidade pode trazer. Uma ingenuidade que ele já não possuía mais. Não queria mais. Lembrou-se de tempos atrás. Quando seu prestimoso irmãos de asas negras lhe protegia. Talvez preparando-o para este exato momento. E mais um passo. Agora o abismo que se seguia adiante parecia lhe clamar. Um convite aterradoramente delicioso. O olhar para o céu lhe exibia o clamor do Pai. Livre-arbitrio, foste tu quem disseste... E o sorriso de ironia era entregue... Não havia mais ingenuidade, não havia mais pureza. O corpo fora maculado por mãos das mulheres do mundo que o desejavam por sua beleza e sua áurea. Deixou que as asas brancas o abraçassem mais uma vez. Sentiu a maciez das penas que lhe afagavam o rosto, o envolviam como um casulo. E ele ri.. ri de um jeito insano de despedida. As asas abriam com ferocidade. Erguiam-se para o ar como se quisessem levanta-lo e impedir que ele tomasse tal atitude.. ele dava a volta. Deixava que o vento frio lhe lambesse o corpo nu. Enquanto caminhava para longe do abismo. E parava. Aspirava o ar, sem sentir o cheiro que dele poderia vir. Tocou cada partícula do ar que vagava ao redor do rosto, do corpo e esticou a língua tocando-o. Virou-se com velocidade e correu na direção do abismo novamente. A boca aberta em um grito de liberdade que sua existência queria dar há muito tempo mas em nome dos desígnios, se mantinha morto em seu peito. E saltava. Para desespero das nuvens, para sorriso das trevas ele saltava. Uma queda longa, densa e pesada que o levava em um ângulo reto direto para o chão de pedras. As asas que pouco a pouco iam se desintegrando, iam deixando de existir. Os olhos que de rubros claros se tornavam vermelho sangue. Caia. Caia para viver a sua escolha e viver entre os homens. Caminhar entre eles. Não como um homem, não como um enviado. Mas um caído. E o estrondar que se escutava e ressonava por todo o planeta. Que balançava plantações e espantava os animais. O mar respondia em fúria. A queda. A Evolução. A dor. A liberdade e a escolha. A leveza. Erguia o corpo. Cada milímetro de seu corpo lhe doía. O gosto do sangue que agora sentia era apenas o seu. E isso o fez rir. Um riso insano de satisfação. Fechou as mãos na terra. Sentindo os grãos de areia que se misturam com o suor. E ajoelhava-se para nova leva de dor. Aquela que vinha das homoplatas. Que expurgavam o que restava de penas brancas de suas antigas asas. Expurgavam com os restos do sangue divinal que a prendiam na carne. Com a cartilagem que se grudava ao esqueleto. Estava sujo de barro vermelho e as penas cinza chumbo surgiam. Saiam lentas, grossas,levando consigo seu novo sangue. Um sangue escuro e forte. Forte como todo ele o era agora. A dor que o fazia apoiar-se com os punhos cerrados no chão. Mas que arrancava consigo um prazer inenarrável e ele ria. Um riso insano de liberdade. As asas se abriam. Ele sabia que haviam olhos conhecidos a lhe espreitar. Mas não disse nada. A dor cessava junto ao respirar ofegante. Ele erguia-se. Renovado. Forte, As asas chumbo o envolvia num bem vindo acolhedor. Ásperas, grossas, violentas e afiadas. E ele olhava ao céu que derramava sobre a terra lágrimas em forma de uma chuva espessa. - Agora sou Samekiel,e escolho os pesos que carrego.. agora eu escrevo a minha historia. E seguiu. O sorriso de satisfação era dado aos olhos conhecidos. Ele partia em direção as luzes da cidade, e ele nunca.. nunca havia percebido como elas eram lindas.
Rabiscado por Sandman
7 :... Encontre a si mesmo ...:
|