
Já fazia algum tempo que ele estava ali. Agachado sobre o encosto da poltrona. O ruído do marfim que ele esfregava um ao outro enquanto montava algo nas mãos. Fora este som, apenas o mensageiro dos ventos que fazia um suave tilintar no quarto infantil. Não demorava muito para que o pequeno imponente entrasse no quarto. Serelepe e animado como sempre, curioso com a luz que vinha do computador, passou direto diante da figura alada que estava empoleirada em sua poltrona. Mas o ruído dos marfins chamavam a atenção e o pequeno arregalava os olhos voltando-se para ele.
- Woow.. quem é você? – A voz infantil saia sem medo. E assim Samekiel riu. Ele era corajoso. Falem o que quiserem falar, Ele nunca se engana em seus escolhidos.
- Eu? Um amigo..
O Pequeno estreitou os olhos e se aproximou. Pé ante pé com o olhar curioso e calmo de criança. O nariz altivo de quem busca o saber. E o ruído do marfim lhe chamava a atenção novamente. Ahh se não fosse o ruído talvez ele passasse direto e fosse ver outra coisa que lhe chamava a atenção. Talvez o barulho da mãe na sala, a espirrar. Mas o barulhinho e a coloração do marfim lhe prendia.
- O que é isso? – a mãozinha apontava para o colar que estava pendurado entre os dedos do ser alado. Os pedaços de marfins talhados com diferentes formas que pareciam dançar no ar.
- Um presente. Estou indeciso entre a cor desta pedra... – abaixava um pouco o tronco exibindo para ele o pedaço de ametista lapidado. – o que acha?
O pequeno sentia-se importante. Estava sendo consultado para algo. Sorria satisfeito, meneando a cabeça afirmativamente.
- Aah ficou maneiro ó.
- Ficou? Então deixarei desta forma.. – e dava por terminado o serviço. Fazendo um leve afago nos cabelos do pequeno que deixava-se tocar aquelas pequenas imagens brancas.
- Ah.. olha!! São asas!? É de verdade!? - A curiosidade infantil voltava a assolar, quando o pequeno subia no assento da cadeira para se aproximar do ser de asas cor de chumbo. O toque sutil dos dedos de menino que deslizavam pelas pesadas penas cinza escuro, que beiravam o preto.
- São sim.. São as minhas asas. – Ele sorria. Deixava que as asas se movessem, abrindo levemente com todo o cuidado, apenas para vislumbrar mais uma vez o olhar extasiado do garoto. O aspirar de ar em espanto que ele fazia. Olhinhos vidrados naquela coisa que se abria e em total envergadura quase que lhe tomava toda a parede do quarto.
- Que legal!!!! Eu quero uma dessas ó! Você sai por aí voando?!
Ele ria. Apoiava os cotovelos dobrados no próprio joelho para olhá-lo mais de perto.
- Você terá. Quando crescer, terá asas tão grandes quanto estas. E mais bonitas também.
- Nooooossa.. Assim quando eu for mais maior de grande?
- Sim. – Sorria – mais maior de grande e mais forte. Por enquanto só precisa do seu sorriso. Não de asas.. e voar.. hmmm.. basta que feches os olhos..
O sorriso de admiração infantil surgia, mas já era tomado por nova curiosidade, ainda mais por que na luz, poderia ver o rosto marmóreo daquele ser alado.
Ergueu a mão para desenhar-lhe o rosto.. Os traços angulares e firmes. Belos e marcados. Os dedos deslizaram sobre a superfície vermelho sangue dos olhos daquele ser diferente.
- Sabe... olhava o caído novamente. – você parece um anjo.
Samekiel sorria. Sobrancelhas arqueadas. A roupa negra que lhe cobria o corpo agora emprestava um tom mais sombrio a imagem pálida.
- Ah é? Eu pareço? E com que anjo eu pareço? – olhava de um jeito divertido para o pequeno a sua frente que falava com ares de gente grande. E o pequeno levava o indicador aos lábios. Como se pensasse por alguns segundos. Talvez tivesse resolvido falar o primeiro nome que lhe vinha à mente.
- Hmmm..parece com o anjo............... Gabriel
- Hm.. sou mais bonito e menos fresco do que ele....
Sorria, e os ruídos que vinham pelo corredor lhe chamavam a atenção.
- Está na hora de dormir mocinho!
E o pequeno rosto se contraia numa expressão divertida de “xiii, ela nos pegou!” e Samekiel sorria. Erguia=-se da poltrona, tomando o pequeno no colo, levando-o para a cama.
- Ela está certa.. está na hora de dormir..
E o indicador suavemente pousava sobre os lábios do pequeno, na marca do silêncio, a cavidade acima da boca.
- Shhhh.. – Boa noite pequeno. Bons sonhos..
O pequeno sorria, meneando a cabeça e ele seguia para a janela. Um salto que o entregava para a escuridão da noite. Agora ele poderia seguir para ver a Luz. A primeira visita a seus protegidos fora feita. E num piscar de olhos a presença da figura de asas cinza chumbo já não podia ser vista no quarto do pequeno querubim Omaliel. A porta do quarto se abria, e a mãe do pequeno entrava. Os olhos atentos procurando pelo quarto.
- Com quem estava falando, mocinho? – ela sorria enquanto ia cobri-lo de lençóis e beijos.
- Com meu anjo da guarda! Boa noite mamãe.
Ela sorriu. Achava graça do jeito despojado. Mais uma leva de beijos era dada, e ela enfim saia, quando ele cansado da traquinagem do dia a dia adormecia.
