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2:05 PM
Ahh o Destino - Conto a 4 mãos
Abrir o pacote. Quantas pitadas de sal? Não eu não estou nem um pouco concentrado em lembrar da receita. Talvez porque não esteja também interessado em reunião com amigos casados em casa. Eles acham que porque você é solteiro devem fazer reuniões e reuniões levando amigas das esposas. Quem sabe assim você, coitado solteiro inveterado, sai da vida de boêmio e encontra aquela meia para os seus pés em noite fria. Acho que a cabeça deles não concebe jamais as maravilhas que existem nesta vida de solteiro. Por exemplo. Não pensam em quão anestesiante pode ser uma ida ao supermercado da vizinhança. Não sabem o que podem encontrar na prateleira de trás quando vc tenta retirar a ultima latinha de molho de tomate. Eu não sabia, até ver aquele par de olhos negros. Eu sorri, ela sorriu sem jeito, mas não daquele sem jeito timidamente caipira. Um sem jeito daqueles que te faz querer olhar mais e desvenda-la inteira. Demonstramos alguma compatibilidade ao brigar pela mesma latinha de molho de tomates à bolonhesa. Um sorriso sem graça. Um gesto cavalheiresco. Eu cedi a lata. Ahhh mas eu tinha um jantar pra fazer. Que se dane o jantar. Que se dane a lata de molho de tomate. Ela sorriu, quis devolver a lata eu me fiz de pomposo e neguei, como todo homem gentil. Cede-se um pouco, ganha-se adiante, caminha pela prateleira e então consegue vê-la inteira. E descobre-se que alem dos olhos ela tinha mais atributos. Esse é o bom da vida de solteiro. Cada saída pode se tornar uma caçada. Alvo detectado. Olhos negros, cintura fina, coxas grossas. Cabelos negros e compridos e um jeito de quem pode devorar você quando menos esperar “Oi. Tem um excelente gosto para molho de tomate” Piadinha besta e sem graça. Mas sempre cola. E ela sorriu, talvez me achando idiota demais, eu não sei. Quando pequeno queria ser mutante e ler pensamentos das pessoas. O perfume dela. O perfume.. o cheiro.. e o cheiro do alho que já havia torrado na frigideira. Droga. Maldito jantar.
As terças era o ritual das compras. Sempre tive a impressão de que todas as terças no supermercado se repetiam como as infindáveis voltas em um carrossel. Os panfletos com as promoções do dia em uma cesta na entrada, “frágeis” mulheres empurrando os carrinhos abastados e pesados em contraposição àquelas com os alimentos básicos à sobrevivência, a criança que dá birra querendo mais uma guloseima e a outra de olhos brilhantes que a simples ida ao supermercado era o passeio do mês, senhoras a escolher as melhores verduras na mesma conversa sobre o aumento dos preços. E este era o ápice das cestas de verduras, a conversa iniciava-se com a alta do preço da batata para a política do senso comum culpando o Presidente da República do Brasil. Descaradamente eu participo da conversa com meneios afirmativos com a cabeça para que se sintam a vontade de continuar o debate político sobre as batatas e o presidente. Deixo-me perder-me entre todas aquelas vidas que se punham a minha frente, abro espaço para participar dos diferentes mundos tão comuns, mas em nenhum momento acredito que consigam penetrar o meu, ou não. Talvez exista alguém a observar o mundo repetitivo dentro do supermercado e eu esteja incluída em seu elenco. Deixei a seção do debate para tomar o último item da lista e encerrar o ritual. Como todo ritual segue padrões, o meu era terminar com a latinha de molho de tomates. Não era uma simples lata. Ela vinha carregada de um valor simbólico. Era o portal para deixar aquele mundo, o ponto final. E naquele dia em especial havia apenas uma na prateleira, o último trem do dia, a única alavanca que parava o carrossel. Segurei-a com firmeza e eis que uma outra mão também a desejava. Eu não podia soltá-la. Inclinei a cabeça para o lado e espiei pelo vão feito entre a minha lata e os outros molhos que não me interessavam. Tive a visão de um olhar sério que aos poucos se desfez para iluminar-se em um sorriso. O olhar prendeu-me e fiquei sem reação. Eu não consegui lê-lo, ele não fazia parte do mundo das terças. Ritual quebrado. Como ele ousava? Em um gesto cavalheiro ele cedeu a lata. Eu tomei-a para em seguida sentir-me envergonhada por meu egoísmo. Ele continuava sorrindo, eu sorri de volta. Vi o reflexo distorcido do meu sorriso tímido e acanhado na lata e devolvi-a, mas o homem não aceitou. Fiquei a segurá-la como um troféu e única palavra que consegui pronunciar foi um bobo “Obrigada!”. Não sou tímida, mas não consegui dizer mais nada e confesso que tive vontade de mandar um “você vem sempre aqui?” só pra puxar assunto. Ainda bem que não o fiz! Ainda espiei-o pelo vão enquanto ele sumia pela prateleira. Vi-me como uma completa idiota! Abaixei a cabeça, o olhar a procurar um lugar pra meu troféu no carrinho.Eu já ia colocar o ponto final quando ouço a voz máscula e macia atrás de mim “Oi. Tem um excelente gosto para molho de tomate”. Uma frase tão tola quanto a minha, mas arrepiou-me ouvi-lo. Voltei-me para ele, sorrindo. Estudei-o fisicamente, assim como ele fez comigo, era notável o olhar dele percorrendo meu corpo. Camisa social por fora do jeans, os cabelos em um bagunçado proposital, traços faciais simétricos. Um conjunto belo aos meus olhos. Aproximei e estendi a mão livre, porque na outra eu ainda segurava a lata. Aperto firme, mão forte que tentou ser delicada junto da minha. “Oi. É. Você também tem.” Olhei para a lata, olhei para ele. Coloquei os cabelos atrás das orelhas em um costume quando fico um pouco nervosa. E sei lá a razão que me fez falar aquilo, mas falei “Podemos dividi-la em um jantar”. Na verdade sei. Foram as mãos dele que me induziram. Quando a soltei, veio a vontade de segurá-la novamente. Finalmente fui transportada e arrancada do meu transe hipnótico para o restaurante, por Marco que reclamava em alto som o molho. Marco é um célebre mestre da cozinha e nunca entendi porque fazia questão de um molho pronto para a refeição dele. Expliquei que havia acabado. Ainda ouvi alguns desaforos, mas o troféu estava bem seguro no meu carro para ser partilhado, sem egoísmo.
Quem disse que solteiros não podem ser cavalheiros? Acho que somos a espécie mais gentil que existe. Tudo bem que geralmente pensamos no que vamos ganhar com cada “Bom dia”, “Obrigado”, “Vc primeiro”, que dizemos. Geralmente aguardamos que os pagamentos sejam feitos em largas camas de lençóis macios, ou nem tanto. No momento eu estava apostando todas as minhas fichas naquela devolução do meu molho de tomate. Havia uma certa magia atrativa no sorriso dela. Aquele sorriso de falsa tímida. Existem 4 tipos distintos de mulher. As que não são sexy e sabem disto, vão viver a vida de forma a trabalhar melhor seu intelecto ou coisa assim. As que não são sexy e acham que verdadeiramente são. Estas são um fiasco. As que são sexy e sabem eu são e por deus, estas provocam guerras, como Helena de Tróia,. E existem as que são e fingem que não são. Estas, dominam o mundo. E era exatamente diante desta espécie que eu, o caçador estava. Não tive pudor algum de correr meus olhos no corpo que ela tinha, e que corpo. Pernas firmes e grossas, seios na medida exata da minha boca. Uma boca que despertava os mais ilícitos pensamentos para aquele horário. Um primeiro contato fora feito e eu precisava prolongar. É engraçado como sempre que você precisa, as melhores frases do manual desaparecem de sua mente como por encanto. É.. eu sei que a frase que soltei não merecia o troféu de casanova do ano. Mas tava bem pro clube dos canalhas. Eu sorri novamente, ela parecia tímida, na verdade um jeito atraente de timidez. Ela me olhou, os tempos estão mudando. E eu me culpei por não estar vestido a caráter. Certo, solteiros não são o top list da elegância ao vestir eles gostam de ser despojados, de sentir-se a vontade, algo como macho dominante, este espaço é meu. Eu esperei que os olhos dela subissem para focar os meus. Olhos negros, olhos negros. Havia o perfume. Ahhhhh o perfume dela, já havia tomado toda aquela sessão. Um perfume levemente doce e picante. Ela estendeu a mão, eu brinquei de ser conde mais uma vez, beijei-lhe a mão. Mas daquela forma proposital que quer arrancar um frio da barriga. Daquela forma que chega a quase molhar a pele entre os dedos. Há uma similaridade no espaço entre os dedos e o sexo feminino. Há muito mais prazer capaz de se extrair do corpo humano. “Alexandre” Ela retribuía a minha piada sem graça, com um complemento bobo. Isca.. e logo o convite.”podemos dividi-la num jantar” Peixe fisgado. Eu ou ela? Isso eu iria descobrir, no momento eu tinha um jantar pra cancelar. Ou não.. Passei a mão pelos cabelos bagunçando-os ainda mais num gesto quase simultâneo ao que ela fazia colocando atrás das orelhas. Confesso que tive vontade de morder o pescoço que surgia diante de mim. Culpa daquele cheiro que vinha dela. E a resposta. Céus.. a resposta para o jantar. De um lado uma reunião com amigos casados que iam me apresentar alguma amiga chata para passar a noite comigo. Do outro lado uma mulher gostosa me convidando para um jantar com algo mais. Ah foi uma escolha muito difícil.. nem têm noção do quanto. “Se me deixar cozinhar.. “ Alguem gritava por ela, e eu não desviei o meu olhar nem por um segundo. Retirei da carteira meu cartão pessoal e entreguei a ela. Uma pequena inversão de papeis, e caminhei até o carrinho dela. Oras eu ia fazer o jantar, nada mais justo. Tomei a lata de molho de tomate. “as 20:00h”
Não são todos os dias em um supermercado que uma latinha de tomates se transforma em um jantar. Um jantar com acompanhante educado e despojadamente elegante. Fiz o convite e reafirmo que não partiu apenas de mim. As mãos dele eram as culpadas. Eu sabia que elas queriam me tocar e precisava tocá-las novamente. E para completar, o beijo demorado e delicado de um “lord” nas costas da minha mão.Suavemente molhado. Eu estava ali, presa entre os lábios e a mão dele. Creio que fiquei corada, senti a mesma sensação de quando recebi meu primeiro beijo. O calor subindo pelo meu corpo até ser estancado na face. Certamente fiquei corada. E há quanto tempo eu não tinha essas impressões? Não me recordo a última vez. Eu não queria tirar minha mão dali, o arrepio percorreu todo meu braço, meu corpo, e parou na base da coluna. Era apenas um beijo na mão. Um beijo e na mão... Se eu tivesse tido tempo poderia entregar-me aos devaneios de imaginar mais, mas...Foi a voz dele que me trouxe de volta à realidade. “Alexandre”. Alexandre, não tire teus lábios designadores de desejo de minha mão. Apenas mais um segundo, dai-me de presente mais um segundo. Cruelmente o tempo acabava. As prateleiras erguiam-se ao meu redor. Ele soltava-me. Realidade. “Dalila” Alexandre ajeitava os cabelos, passava os dedos, os fios deslizavam suavemente. A cena em câmara lenta. Invejei os fios. Quanto tempo passamos naquela conversa boba eu não sei, alguns minutos entre a lata, o toque e o meu convite. Coloquei meus cabelos atrás da orelha, juntei as mãos atrás do corpo em um gesto meio infantil. Agora percebo como estava envergonhada, então o esperei responder. Sim? Não? . “Se me deixar cozinhar”. Alguém gritava pelo molho. Quem era mesmo? Eu não lembrava o nome dele o “Se me deixar cozinhar” retumbou de tal forma em meus ouvidos que não conseguiram compreender nada mais. Olhos nos olhos. “Eu deixo se permitir que eu escolha o vinho.” Alexandre me entregou um cartão e propositalmente deixei meus dedos resvalarem-se nos dele e escorregarem-se brandamente para tomar o cartão. Simples gestos podem ser muito prazerosos, pena que a rotina nos faça desprezar as várias possibilidades do tato. No gesto seguinte ele prendeu-me em meu momento de alucinação das terças, retirou o ponto final do meu carrinho. Deixou-me presa nos caprichos da minha imaginação. E como detentor da chave da realidade ele impôs o horário das 20h sem ao menos esperar minha resposta. Fiquei de costas, o cartão próximo aos lábios, das narinas e eu ainda podia sentir resquícios do cheiro dele no pequeno pedaço de papel. Permaneci assim até que ele partisse. Escorreguei brandamente o cartão pelo pescoço, tronco, até que ele encontrasse o bolso traseiro do jeans. Lembrei-me do meu suposto observador e não me importei eu tinha um jantar. E antes dele preparar o jantar era eu quem teria que me preparar.
Rabiscado por Sandman
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